Marketing16 de out de 2026

GEO e SEO: o que o evento do CRO Brasil mostrou sobre o futuro da busca

O SEO não morreu, ganhou uma camada nova. O que o case da Sem Parar e a mesa do CRO Brasil mostraram sobre GEO e como ser citado pelas IAs.

por Renato Kunitaki
GEO SEO

O encontro do CRO Brasil sobre GEO e SEO deixou uma mensagem clara: o SEO não morreu, ele ganhou uma camada nova. E as empresas que trabalham essa camada com método já têm números para mostrar.

O destaque da noite foi o case da Sem Parar, apresentado com dados abertos, algo raro em eventos do setor. Mais do que teoria, o encontro mostrou como uma marca grande está levando GEO para a operação do dia a dia.

A abertura trouxe um dado que ajuda a medir o tamanho da onda. Segundo o que foi apresentado, cerca de 25% dos brasileiros ainda não usam IA no dia a dia, e muita gente cita o Mercado Livre como um dos principais “buscadores” que usa. Nos EUA, as IAs ainda respondem por uma fatia pequena das buscas, perto de 3%. A IA é o futuro, mas a busca tradicional ainda sustenta o resultado de hoje. O mercado vive numa bolha, e vale lembrar disso antes de abandonar o que funciona.

🎯 GEO não é ranquear, é ser citado

A definição apresentada no evento foi simples: GEO é fazer sua marca aparecer como fonte e menção nas respostas das IAs. No SEO, a disputa era por posição na lista de links azuis. Aqui a briga é para ser o trecho que a IA escolhe usar.

SEO tradicionalGEO
ObjetivoRanquear na lista de linksSer citado como fonte
MétricaCliques por palavra-chaveMenções, citações e tráfego vindo das IAs
Unidade de conteúdoA página inteiraO trecho (parágrafo, H2)
AutoridadeBacklinksMenções de marca, PR, fontes de terceiros

Um dos conceitos centrais foi o de ranqueamento por trechos. A IA guarda o parágrafo que responde e descarta o resto. Então cada H2 precisa se sustentar sozinho, com contexto e resposta direta.

Outro conceito-chave é o query fan-out. Diante de uma pergunta como “roteiro de 14 dias em Orlando”, a IA quebra isso em 10 ou 15 buscas paralelas, inclusive sobre outlets, que nem foram pedidos. Ou seja: o conteúdo precisa responder também as perguntas vizinhas, não só a principal.

O caminho apresentado, de forma resumida:

  1. A IA interpreta a intenção da pergunta.
  2. Quebra em várias sub-buscas.
  3. Consulta a própria base e, se precisar, vai a Google, Bing, notícias e redes sociais.
  4. Escolhe os trechos mais relevantes.
  5. Pesa a autoridade de cada fonte naquele tema específico.
  6. Define quem será citado.
  7. Gera a resposta com as fontes.

📊 O case Sem Parar: os principais aprendizados

O time da Sem Parar saiu de 6 perguntas monitoradas, com 92% de menção, para 204 perguntas, com cerca de 75%. A leitura da empresa foi: “a performance não caiu, a visão expandiu”. É talvez a lição mais importante do evento: monitorar poucos prompts de marca gera um número bonito e uma visão falsa.

Uma régua própria contra o excesso de recomendações. A empresa montou uma matriz de maturidade com pesos para conteúdo, técnico, marca, dados estruturados, YouTube, PR e Google Meu Negócio. A nota-base era 46,8. Assim, toda sugestão de agência ou ferramenta passa pela mesma régua antes de virar tarefa.

Marca como entidade. Havia páginas dizendo que a tag funcionava em 2 mil, 3 mil ou 4 mil postos, e a IA repetia o erro. Corrigir e consolidar a informação já trouxe resultado. Se a própria marca não tem um número consistente, a IA também não terá.

Dados próprios viram fonte rápido. Com o Free Flow chegando ao Brasil, a empresa reuniu dados próprios e públicos num repositório aberto sobre o tema. Em 32 dias, 16 páginas viraram fonte em 5 IAs.

Fora do site pesa tanto quanto dentro.

  • YouTube: a meta é um vídeo por pergunta, sempre com transcrição bem feita.
  • Wikipedia: um verbete neutro que a própria comunidade expandiu depois.
  • Google Meu Negócio: mais de 160 lojas reivindicadas e uma placa com QR code e NFC pedindo avaliação. A nota subiu de 3,5 para 4,6.

O ponto do Google Meu Negócio chama atenção. A IA usava as reclamações das fichas para dizer que “a tag não funciona”. A reputação local virou insumo de resposta de IA.

O que a mesa redonda acrescentou

A mesa deixou claro que não existe bala de prata. Cada problema pede uma alavanca diferente.

Persona muda tudo no B2B. Na Sem Parar Empresas, separar os prompts por perfil mostrou cenários bem distintos: gestor de RH, transportador e gestor de frota. Cada um tem critério de compra próprio. Também descobriram que a marca aparecia, mas vários produtos do portfólio não. A solução foi conteúdo de jornada, do tipo “como contratar X para empresas”.

💡 A regra de diagnóstico proposta:

  • Se a marca aparece com informação incompleta, melhore o conteúdo.
  • Se não aparece, mexa na estrutura técnica.
  • Se a informação precisa de validação, busque referências externas.

llms.txt: teste, não acredite. Testaram em dois sites do mesmo grupo. No site com SEO mais maduro, o efeito foi pequeno. No que tinha linkagem interna mais fraca, o tráfego vindo do ChatGPT cresceu bem. A conclusão não foi “funciona”, foi “depende, teste”.

Mensuração ainda é o calcanhar de Aquiles. No B2B, o ciclo de venda é longo. O caminho foi medir por etapas (descoberta, tráfego, evento, lead) e acompanhar o lead no CRM. Mesmo assim, atribuir receita ao GEO ainda é o ponto que ninguém conseguiu fechar.

Liderança curiosa é metade do caminho. Quem tem diretoria perguntando “como a gente aparece no ChatGPT para tal produto?” anda muito mais rápido. Pela primeira vez em anos, SEO está sendo chamado para a mesa do C-level.

⚠️ Pontos que pedem cautela

O conteúdo do evento foi sólido, mas três afirmações merecem contexto antes de serem replicadas.

llms.txt é correlação, não causa comprovada. Em junho de 2025, o Google afirmou que nenhum sistema de IA usa o llms.txt, com base em logs de servidor (Search Engine Roundtable). O salto de tráfego mostrado no evento pode ter vindo do conjunto de correções feitas na mesma época. Subir o arquivo custa pouco, mas ele não deve ser tratado como alavanca principal.

Wikipedia exige transparência. Editar o verbete da própria empresa, ou pagar alguém para isso, é conflito de interesse, e as regras pedem que o vínculo seja declarado (Wikipedia: conflito de interesse). Sem isso, o texto pode ser apagado e a marca exposta. É um bom canal, desde que com neutralidade real e vínculo declarado.

“O Reddit bloqueou todo mundo” não é bem assim. O Reddit tem acordos de licenciamento com Google e OpenAI. A queda de citações do Reddit no ChatGPT em setembro de 2025 é atribuída por analistas a uma mudança no Google, que limitou quantos resultados os fornecedores de dados conseguem puxar (G2). A lição continua válida: nenhuma estratégia deve depender de uma fonte só.

Um dado reforça o que foi dito no evento: segundo a Muck Rack, em maio de 2026, 84% das citações de ChatGPT, Claude e Gemini vêm de mídia espontânea, ou seja, de terceiros falando da marca (AI Magazine). PR voltou a ser assunto de SEO.

✅ Como colocar em prática

O evento pode ser resumido em seis ações:

  1. Escolher um tema e testar pequeno. Em vez de abrir várias frentes, monitorar um tema relevante, mudar uma coisa e acompanhar o impacto.
  2. Fazer engenharia reversa. Rodar a pergunta onde a marca quer aparecer, ver quem é citado e em que formato, e adaptar o conteúdo a isso.
  3. Monitorar fora da bolha. Incluir prompts sem marca e separar por persona. Os concorrentes que importam nem sempre são os já conhecidos.
  4. Arrumar a casa antes de inventar. Dados consistentes em todos os canais, Google Meu Negócio em dia e H2s que respondem de verdade.
  5. Criar uma rotina, mesmo sem ferramenta. Um agente de IA rodando as mesmas perguntas toda semana já funciona como monitoramento.
  6. Publicar rápido e otimizar depois. A IA reage mais rápido que o SEO tradicional, e isso pode jogar a favor.

A principal conclusão é que GEO tem menos a ver com o site e mais com a forma como a marca existe na internet como um todo. O site continua sendo a base, mas sozinho já não responde tudo.